1. O que é o Tesouro Direto

O Tesouro Direto é um programa do Tesouro Nacional que permite a qualquer pessoa física comprar títulos públicos federais pela internet, com valores a partir de poucas dezenas de reais. Na prática, você empresta dinheiro ao governo federal e recebe de volta o valor emprestado mais juros, em uma data combinada.

É considerado o investimento de menor risco de crédito do país, porque o pagamento é garantido pelo Tesouro Nacional — o mesmo governo que arrecada impostos e emite moeda. Isso não significa "zero risco" (existe risco de mercado, explicado na seção 4, e risco de o valor render menos que a inflação em cenários específicos), mas o risco de calote é o menor entre os investimentos disponíveis no Brasil.

O programa existe desde 2002 e hoje é operado em parceria com a B3 (a bolsa brasileira) e com corretoras e bancos, que servem de intermediários entre você e o Tesouro Nacional.

2. Como funciona o mecanismo por trás

Para investir, você precisa de conta em uma corretora ou banco habilitado a operar no Tesouro Direto. O fluxo básico é:

1) Você abre conta gratuita em uma corretora. 2) Transfere dinheiro para a conta da corretora. 3) Escolhe o título e o valor que quer investir. 4) A compra é processada e o título fica registrado em seu nome na custódia da B3. 5) No vencimento (ou quando você decidir vender antes), o valor cai de volta na sua conta na corretora.

Os títulos têm liquidez diária: em dias úteis, o Tesouro Nacional garante recompra de qualquer título antes do vencimento, com a venda caindo na conta em D+1 (um dia útil depois). Isso torna o Tesouro Direto um dos investimentos mais líquidos da renda fixa — mas liquidez não é o mesmo que "sem risco de preço", como a seção 4 explica.

3. Os tipos de título disponíveis

Todos os títulos do Tesouro Direto se encaixam em três famílias, que diferem principalmente na forma como a rentabilidade é definida:

Tesouro Selic

Pós-fixado. Rende a variação diária da taxa Selic (a taxa básica de juros da economia), acrescida ou não de um pequeno spread. É o título com menor oscilação de preço no curto prazo, porque seu valor sobe de forma quase linear, dia após dia, acompanhando a Selic. É a opção mais indicada para reserva de emergência e objetivos de curtíssimo e curto prazo.

Tesouro Prefixado

Taxa fixa, definida no momento da compra e conhecida até o vencimento (ex.: 11% ao ano). Se você levar o título até o vencimento, recebe exatamente essa taxa combinada — nem mais, nem menos. Se vender antes, o preço pode estar acima ou abaixo do que você pagou, dependendo de como as taxas de juros de mercado se moveram nesse meio-tempo (seção 4). Existe também a variante Prefixado com Juros Semestrais, que paga cupons de juros a cada 6 meses em vez de tudo no vencimento.

Tesouro IPCA+

Híbrido. Paga a variação do IPCA (o índice oficial de inflação) mais uma taxa fixa combinada na compra (ex.: IPCA + 6% ao ano). É o título que melhor protege o poder de compra no longo prazo, porque garante um ganho real (acima da inflação) independentemente de quanto a inflação variar. Também existe a variante IPCA+ com Juros Semestrais, e as versões mais recentes voltadas a objetivos específicos, o Tesouro RendA+ (pensado para complementar aposentadoria, com resgates mensais programados) e o Tesouro Educa+ (pensado para custear educação, com resgates programados por vários anos).

TítuloTipo de rentabilidadeMelhor usoOscilação de preço
Tesouro SelicPós-fixado (Selic)Reserva de emergência, curto prazoMuito baixa
Tesouro PrefixadoTaxa fixaMetas com data certa, cenário de juros em quedaMédia a alta
Tesouro IPCA+Inflação + taxa fixaAposentadoria, longo prazo, proteção contra inflaçãoAlta no curto prazo, baixa se levado ao vencimento

4. Marcação a mercado: por que o preço sobe e desce

Este é o conceito que mais gera confusão — e prejuízo — entre quem começa a investir no Tesouro Direto. Os títulos Prefixado e IPCA+ têm marcação a mercado: o preço exibido na plataforma muda todos os dias, para cima ou para baixo, mesmo sem você fazer nada.

O motivo: um título prefixado pagando 11% ao ano só vale, hoje, o preço que faz sentido matemático dado o que o mercado está pagando em títulos parecidos. Se as taxas de juros de mercado sobem para 13% ao ano depois que você comprou a 11%, seu título fica menos atraente que um novo — e seu preço cai para compensar. Se as taxas caem para 9%, seu título a 11% fica mais atraente que um novo — e seu preço sobe.

Exemplo simplificado
Você compra um Tesouro Prefixado 2031 a 11% ao ano. Um ano depois, a taxa de mercado para o mesmo prazo cai para 9% ao ano. Seu título, que trava uma taxa mais alta, passa a valer mais do que você pagou — se vender agora, você realiza um ganho extra além dos 11% combinados.
Se, em vez disso, a taxa de mercado tivesse subido para 13%, seu título valeria menos do que você pagou — vender nesse momento significaria receber menos do que os 11% prometidos.

A regra prática: se você levar o título até o vencimento, a marcação a mercado não importa — você recebe exatamente a taxa combinada na compra (ou a inflação + taxa combinada, no caso do IPCA+). O risco de preço só se materializa em perda se você precisar vender antes do prazo, no momento errado. O Tesouro Selic praticamente não sofre com isso, porque seu valor já acompanha a taxa de juros do dia a dia.

5. Exemplo numérico de rentabilidade

Para ilustrar o efeito dos juros compostos ao longo do tempo (a mesma lógica explicada no guia de juros compostos), veja um investimento único de R$ 10.000 em diferentes cenários hipotéticos de taxa, sem nenhum aporte adicional:

Taxa anual (exemplo)Resultado em 5 anosResultado em 10 anos
8% ao anoR$ 14.693R$ 21.589
10% ao anoR$ 16.105R$ 25.937
12% ao anoR$ 17.623R$ 31.058

As taxas reais do Tesouro Selic, Prefixado e IPCA+ variam ao longo do tempo, seguindo o cenário econômico — por isso os valores acima são exemplos ilustrativos, não uma promessa de retorno. Consulte sempre a plataforma oficial (tesourodireto.com.br) para as taxas vigentes no momento da sua compra.

6. Tributação: Imposto de Renda e IOF

Todos os títulos do Tesouro Direto seguem a tabela regressiva do Imposto de Renda, que incide apenas sobre o rendimento (não sobre o valor investido) e diminui quanto mais tempo o dinheiro fica aplicado:

Prazo da aplicaçãoAlíquota de IR sobre o rendimento
Até 180 dias22,5%
De 181 a 360 dias20%
De 361 a 720 dias17,5%
Acima de 720 dias15%

O imposto é retido automaticamente no momento do resgate ou vencimento — você não precisa calcular nem pagar por fora. Além do IR, há incidência de IOF regressivo para resgates feitos em menos de 30 dias após a compra, que zera completamente a partir do 30º dia. Na prática, isso significa que sacar um Tesouro antes de 30 dias tem uma mordida extra do IOF, além do IR.

7. Taxas: custódia B3 e corretora

Existem duas taxas possíveis no Tesouro Direto:

Taxa de custódia da B3: cobrada anualmente sobre o valor investido, hoje fixada em 0,20% ao ano para a maioria dos títulos, com isenção total para o Tesouro Selic até um determinado valor de saldo (consulte o valor vigente na plataforma oficial). Ela é debitada automaticamente e proporcional ao tempo em que o dinheiro fica aplicado.

Taxa da corretora: a maioria das corretoras hoje cobra 0% para operar Tesouro Direto, mas vale sempre conferir antes de abrir conta, porque algumas instituições ainda cobram uma taxa de administração.

Por que isso importa
Em R$ 50.000 investidos, uma taxa de custódia de 0,20% ao ano representa R$ 100/ano — pequeno, mas ainda assim vale comparar corretoras para garantir que você não está pagando taxa de administração adicional por cima, o que corroeria parte do seu rendimento sem necessidade.

8. Tesouro Direto × poupança × CDB

Comparado à poupança, o Tesouro Selic costuma render mais na maior parte dos cenários de juros, mesmo descontando o Imposto de Renda que a poupança não tem — porque a poupança paga uma fórmula travada (parte da Selic, com teto) enquanto o Tesouro Selic acompanha a taxa cheia. Comparado a um CDB, a diferença depende do percentual do CDI que o banco oferece: CDBs de bancos menores, pagando bem acima de 100% do CDI, podem superar o Tesouro Selic em rentabilidade bruta — mas trocam a garantia do Tesouro Nacional pela garantia do FGC (Fundo Garantidor de Créditos), limitada a R$ 250 mil por CPF e instituição.

Para uma comparação completa entre CDB, LCI, LCA e Tesouro Direto — incluindo tributação e liquidez lado a lado — veja o guia Renda Fixa: CDB, LCI, LCA e Tesouro Direto Comparados.

9. Qual título escolher para cada objetivo

Reserva de emergência: Tesouro Selic, sempre. Baixíssima oscilação de preço e liquidez diária significam que o dinheiro está lá quando você precisar, sem risco de resgatar em um momento de preço desfavorável.

Meta com data definida (ex.: entrada de um imóvel em 4 anos): Tesouro Prefixado com vencimento próximo da data da meta, para travar uma taxa conhecida e eliminar a incerteza do valor final — desde que você planeje resgatar apenas no vencimento.

Aposentadoria e longo prazo: Tesouro IPCA+, porque garante ganho real acima da inflação ao longo de décadas, protegendo o poder de compra do patrimônio construído.

Educação dos filhos ou renda complementar programada: Tesouro Educa+ ou Tesouro RendA+, desenhados especificamente para esses fluxos de resgate.

Em qualquer um dos casos, a regra de ouro é: alinhe o vencimento do título ao prazo do seu objetivo, para nunca depender de vender um título com marcação a mercado antes da hora.

10. Passo a passo para comprar

1. Escolha uma corretora habilitada. A maioria das corretoras de valores no Brasil oferece acesso ao Tesouro Direto, geralmente sem taxa de administração.

2. Abra conta e faça o cadastro. O processo costuma ser 100% digital, com envio de documentos e comprovação de dados.

3. Transfira o valor que você quer investir para a conta da corretora, via TED, Pix ou transferência entre contas.

4. Escolha o título de acordo com seu objetivo (seção 9), veja a taxa vigente e o valor mínimo de investimento na plataforma.

5. Confirme a compra. O título fica registrado na sua conta de custódia na B3, vinculado ao seu CPF.

6. Acompanhe pela própria plataforma da corretora ou pelo site oficial tesourodireto.com.br, e resgate total ou parcialmente quando quiser, respeitando a lógica da marcação a mercado explicada na seção 4.

Compare o Tesouro Selic com um CDB ou a poupança

Informe o valor, o prazo e a taxa oferecida em cada opção para ver qual rende mais líquido, já descontando o Imposto de Renda.

Abrir calculadora CDB × Poupança

11. Erros comuns

Comprar Prefixado ou IPCA+ para reserva de emergência. Se você precisar sacar de repente, pode pegar um momento de preço desfavorável e perder dinheiro. Reserva de emergência é sempre Tesouro Selic.

Vender no meio do caminho por ansiedade. Ver o preço de um Prefixado ou IPCA+ cair no aplicativo assusta, mas se o plano é levar até o vencimento, essa oscilação não afeta o valor final combinado.

Ignorar o vencimento na hora de escolher o título. Comprar um título de vencimento distante para uma meta de curto prazo aumenta desnecessariamente a exposição à marcação a mercado.

Não considerar o Imposto de Renda ao comparar com LCI/LCA. Como o Tesouro paga a tabela regressiva e a LCI/LCA é isenta, uma taxa bruta parecida pode render menos líquido no Tesouro — vale sempre comparar depois do imposto.

Deixar dinheiro parado esperando "a taxa subir". Tentar acertar o timing das taxas de juros costuma custar mais em tempo perdido do que qualquer ganho potencial de esperar o momento "perfeito".

12. Conclusão

O Tesouro Direto não é complicado — ele só exige entender três coisas: o tipo de título certo para o seu prazo, o funcionamento da marcação a mercado, e a tabela de Imposto de Renda. Com isso resolvido, é uma das formas mais simples e seguras de sair da poupança e fazer seu dinheiro trabalhar de verdade.